Leah Bowen

Port 204

19/2/07

Orfeu

            Várias vezes durante o filme Orfeu eu quase chorei no meio de um monte de gente no LRC.  Foi uma história muito forte!  Me lembrou um pouco de Cidade de Deus só que com romance.  A realidade das favelas do Rio não foram tão violentas nesse filme quanto em Cidade de Deus mas deu para ver do mesmo jeito a tristeza delas.  O romance de Orfeu e de Eurídice foi meio exagerado, o que fez mais difícil levar a sério o final, mas pode ser que a exageração fez com que o amor deles fosse mais bonito ainda.  Sem dúvida, eu fiquei de boca aberta quando Mira matou Orfeu e antes, também, quando Orfeu foi lá embaixo na floresta buscar o corpo de Eurídice.  A cena que mostrou Orfeu sentado no meio do mato com Eurídice no colo cantando foi quase ridículo, mas não o suficiente para não ser comovente. 

            O que foi muito bonito do filme foi o fato de que Orfeu conseguiu permanecer puro e bom mesmo morando na favela no meio de todo o narcotráfico e pobreza.  O filme mencionou várias vezes que Orfeu e Luciano eram melhores amigos de infância.  É surpreendente a diferença dos dois caminhos que os meninos escolheram na vida.  A prova da escolha destrutiva de Luciano se manifesta no final do filme quando ele mata Eurídice.  O tiro foi de propósito, mas o tiro ter acertado nela foi sem querer – ele só queria asustá-la.  Eu achei o cúmulo quando Luciano estava discutindo com o amigo dele enquanto Eurídice ficava jogada no chão com um tiro na barriga.  Só o fato deles terem ficado lá em frente dela tentando decidir se eles deveriam levá-la ao hospital já demonstrou o verdadeiro caráter de Luciano.  O pior foi quando eles acabaram não levando Eurídice ao hospital e jogaram o corpo dela lá para baixo na floresta.  Se Luciano fosse mesmo amigo de Orfeu, ele teria se sacrificado para salvar a vida do amigo dele, porque realmente, Eurídice era a vida de Orfeu.

            O amor dos dois protagonistas foi muito lindo e o romance também, mas foram as coisas que não tinham nada a ver com a história de romance que mostraram como é a vida na favela.  Por exemplo, no começo do filme, a polícia chega e todo mundo, policial e bandido, começam a atirar.  No meio disso, em uma casa bonitinha, bem-cuidada, uma menininha que estava vendo TV se esconde atrás de uma poltrona e quando a mãe sai da cozinha, ela leva um tiro no peito.  Depois mostram a mãe de Orfeu lendo búzios que ela assopra e joga em um prato.  Esses costumes e tradições você não vê quase nunca hoje em dia na cidade.  São coisas de escravo que trouxeram para o Brasil.  Mais um exemplo da vida na favela é quando Luciano e o grupo dele querem matar o homem que durmiu com uma menina.  A menina acaba o matando mas só porque se não o fizesse, os amigos de Luciano teriam botado fogo nele.  A Eurídice vê tudo isso e fica muito impressionada.  Ela não tinha lugar lá, como a mãe que levou o tiro não tinha lugar lá e como Orfeu também.  O filme foi muito triste, não só por causa das mortes no final mas por causa da vida pobre e violenta dos brasileiros que moram em favela.