MINHA VIAGEM A
PORTUGAL – MAIO 2005
Nossa
canção brasileira diz “Você já foi à
Bahia, nego? Não? Então vá!”
Aqui
faço um plágio, “Você já foi a Portugal? Não? Então
vá!” É muito
bonito e simpático. Vá até lá constatar, garanto
que não vai se arrepender! ☺
Era um
sonho meu conhecer Portugal, por muitas razões, entre elas poder
oferecer a meus alunos um conhecimento de experiência pessoal e
não só de leituras. Embora minhas aulas focalizem no Brasil,
Portugal tem tudo a ver com nossa língua, nossa cultura, nossa
história.
Aqui
vão algumas considerações sobre esta viagem tão
bonita com tanto para contar.
Não
há dúvida que minha filha Christina e eu fomos privilegiadas em muitas
ocasiões com “extras” com os quais nem imaginávamos.
O nosso
roteiro entre as cidades principais foi todo de ônibus, com
exceção do Vale do Douro, onde alugamos um carro. Quando se viaja de ônibus
presenciamos fatos e costumes, vemos coisas que não teríamos a
chance de ver e experimentar de outra forma. Leva-se mais tempo, é
claro, mas o aprendizado é mais rico em muitos aspectos.
Tomamos
também táxis entre as pequenas distâncias e aqui o
aprendizado não sai de livros, nem de documentários que possamos
por acaso ler e assistir, mas sim do povo, do nativo, e aprende-se a
opinião popular de muitos aspectos da vida cotidiana que possamos ter a
curiosidade de perguntar : a situação política,
econômica, o papel de Portugal dentro da União Européia, os
empréstimos feitos pela União a Portugal e a dificuldade que
causará um dia talvez, o racismo, o estrangeiro que vem visitar e
permanece para sempre e as dificuldades econômicas que apresenta ao governo,
o brasileiro que vem e volta ao Brasil, aqueles que decidem ficar, e por outro
lado os portugueses que foram para o Brasil e não querem sair de
lá.
Esta parte
achei enriquecedora. As opiniões divergem e a gente não fica
só com um ponto de vista. Abre-se o olho para muita coisa que ficaria
desconhecida se tivéssemos atravessado Portugal de carro ou de
avião.
“O
Porto trabalha, Coimbra estuda, Fátima reza e Lisboa gasta”, diz a
opinião pública portuguesa.
ROTEIRO:

LISBOA -
Sintra , Cascais ,
Belém
SALEMA – Vila do Bispo , Sagres
NAZARÉ
– Alcobaça , Batalha , Fátima
PORTO
– Régua, Pinhào
Os passeios
por todo Portugal requerem um bom par de pernas. Poderia-se dizer que a
qualquer lugar que se vá você tem










As descidas
não são menos assustadoras. É preciso uns bons tênis
e breque nos pés.

Mas vale a
pena!
Como valeu
a pena!
Não
são só os acidentes geográficos naturais de
elevações por toda região. Os castelos e fortes e torres
de observação foram na sua grande maioria construídos nos
sítios mais elevados por serem pontos estratégicos de defesa.
É lá que se quer ir, nem que haja centenas de degraus a serem
escalados. E isso a gente fez! Todos! Ou quase todos…
Às
vezes é possível, além do ônibus, apelar para um
outro transporte público que apesar de ser antigo é muito
eficaz Lisboa
|
E as ruas
são extremamente estreitas e tortuosas. Há lugares em que se
sente que se anda em círculos. Quem sabe não fizemos isto
mesmo? |
|
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E é andando que se vê e aprende
muito. O que mais chama atenção é claro a linguagem. O
sotaque a gente já conhece dos portugueses que passaram por nossa vida
no Brasil, mas o vocabulário, só estando em Portugal e lendo e
ouvindo tudo que o nosso cérebro pode captar o dia todo a todo
momento. O mais divertido foi o
uso da palavra peão/peões em lugar de pedestre |
|
|
E ainda temos pastelaria
em lugar de confeitaria ou padaria galão para um café com leite
grande, no copo, se você pedir meia
é em xícara pequena. |
Adeus, que é tão triste, é
simplesmente até logo, tchau; perceber em lugar de entender; camioneta/autocarro em lugar de ônibus; comboio em vez de trem; ementa para cardápio, e muitas
outras expressões mais e tudo isto seguido de um simpático se faz favor.
Se você quiser saber muitos mais vocábulos, há o
delicioso Dicionário de português de Mário Prata,
Shifaizfavoire.
E se faz favor, permita-me contar também que a comida é
deliciosa.
Quando criança, no Brasil,
em minha casa na Sexta-Feira Santa comia-se bacalhau, e eu não
era lá muito dada a este prato, mas era o que tinha e eu comia um
bocadinho (outra palavra muito usada em Portugal para dizer um pouco, de
qualquer coisa, de tempo, de distância, do que seja). Em Portugal, na
costa só comi bacalhau, e embora o gosto em minha boca fosse o mesmo de
criança, havia o sabor da viagem, da experiência, do sonho
realizado, e digo a você, estava uma delícia!
E o pão? Que delícia! É diferente do do Brasil,
onde se pode gabar de termos o melhor pãozinho francês, mas este
de Portugal também é um pão que não se come um
só. Depois a gente anda mesmo, então saboreamos muitos.
Não se pode deixar de falar dos vinhos. Se você não
é conhecedor de vinho, como eu, é preciso experimentar. E se
já gosta de um bom vinho, então é comprar!
Caves e quintas
no Vale
Douro
Que linda experiência tivemos em Lisboa em um restaurante com fado
ao vivo saboreando o vinho verde da região. Fomos ao Adega do Ribatejo, onde por
coincidência tivemos um daqueles “extras” que nos foram dados
durante toda a viagem. Havia um casal comemorando trinta anos de casados e
depois de muito vinho e celebração, o marido resolveu cantar o
fado à moda dele, mas a memória, aliada à influência
do vinho, estava meio debilitada e o fadista nos fez rir muito. Ele certamente
estava feliz e desinibido. Sua esposa não compartilhava da sua
descontração.
Não posso deixar de contar que Portugal estava em flor, pois por
ser o mês de maio a primavera estava em sua plenitude. O que mais vimos
foram rosas, de todas as cores e muito grandes. O que nos chamou a
atenção também foi o gerânio que cresce do tamanho
de um arbusto, quase uma árvore. Muito bonito. As pessoas cuidam de seus
jardins com carinho apresentando aos peões,
como nós, a beleza que o clima proporciona.
Em nossa viagem pelo interior do país pudemos observar campos de
oliveiras que estavam em flor. Vastas áreas de sobreiros também,
a árvore que dá a cortiça, um dos grandes produtos de
exportação de Portugal. Há um outro arbusto, em grande
quantidade, que dá flores amarelas, um quadro de encher os olhos, mas
que desconheço o nome. E é claro, passeando pelas vinhas do Vale
do Douro, pudemos ver de perto as uvas que não eram mais que uma
cabeça de alfinete. Na época da colheita a paisagem há de
ser um espetáculo. Quanto vinho não vai sair de lá!
Falando das belezas naturais, na estrada entre Évora e
Nazaré vimos vários ninhos de cegonha. São gigantescos,
construídos na pontinha de postes de eletricidade, daqueles de madeira,
dos antigos mesmo, como que um desafio à lei da gravidade e do
equilíbrio. E vimos aqueles pássaros enormes voltando para sua
casa ou já nela, para dar um pouco mais de suspense à cena. Cai,
não cai. Acho que não cai. Uma peculiaridade da natureza.
Por falar em moradia, ficamos em diversas modalidades de alojamento,
desde o hotel comum até a pensão familiar, onde se aluga um
quarto e também em pousada, a qual antigamente dizem ter sido a
mansão de um fidalgo português.
Muito peculiar foi a chegada em Nazaré, onde se consegue moradias
muito boas através de mulheres que ficam à espera dos passageiros
dos ônibus. Como já havíamos feito reserva, não
pudemos passar pela experiência de ir verificar o que ela tinha para
oferecer. Mas o fato é que você pode chegar a Nazaré sem
ter lugar para dormir e conseguir um assim que sai do ônibus. Elas
vêm até a gente e dizem que têm quarto, apartamento, casa, o
que você preferir, de muito gosto, e de ótimo preço.
Esta atitude aberta e franca vimos em diversas partes de Portugal. Penso
que nosso sotaque brasileiro já é um bom cartão de visita,
porque os portugueses gostam de nós. E nós deles.
Como uma amostra disto, estávamos descendo uma ladeira em
Coimbra, voltando da universidade, e uma senhora, Dona Fernanda (eu sempre
pergunto o nome das pessoas), abriu a porta de sua casa quando
passávamos em frente e nos cumprimentou efusivamente. Como a cidade
estava em festa, pois era o Dia
da Queima das Fitas, penso que seu humor também
estava em festa e ela começou a conversar conosco, nos ofereceu
água fresca (gelada em Portugal) e até nos convidou para entrar e
comer um bocadinho!
Outro exemplo desta atitude amistosa foi em Salema. Havia uma senhora,
dona Eugênia, fazendo crochet em um banco na calçada da praia e conversava
animadamente com suas amigas. Quando ela estava sozinha eu fui até ela
para saber o que fazia com crochet, uma boa desculpa para conversar com um
nativo, e ela não se fez de rogada, logo se pôs a contar que era
viúva recentemente, e sentia muita falta do esposo, contou de seus
filhos, da casa, a vida enfim.
No ônibus para Sagres eu fiz um comentário para o motorista
de que as estradas eram estreitas e com muitas curvas. Para quê, meu
Deus? Saiu uma conversa, na verdade um debate entre os passageiros, homens e
mulheres, que o governo não dava atenção a essas estradas,
que estava esperando que alguma tragédia acontecesse. Aliás eu
notei mesmo que os portugueses normalmente conversam de uma forma exaltada, até
meio brava, seja sobre o governo ou o sabor do pastel de nata. Ficamos sabendo
sobre o lugar, o dia-a-dia de cada um e o que o governo não fazia pelo
bem da população. Tudo faz parte do aprendizado…
E o motorista de táxi em Lisboa? Só mais esta
história para ilustrar como o português é conversador. Ele
contou um acidente que teve com outro motorista que não tinha seguro.
Era só eu dizer “Não diga!”e ele tinha mais 5 minutos
para contar. Tanto que chegamos à porta do hotel e ele continuou
contando, contando e ignorando os novos passageiros que talvez tivessem que
tomar um avião ou coisa parecida. E não como quem conta um fato,
mas como quem há de se vingar do vigarista que quis levar a melhor.
Há tantas histórias para contar, mas estas deixarei para
meus alunos.
Desejo a você, que compartilhou comigo esta leitura e
experiência, que Portugal esteja em seus planos. Como disse, você
não vai se arrepender!
Suzana Maria Campos Pinto
Bloem
Portuguese Lecturer
Center for the Study of Languages - MS 36
Rice University
6100 Main Street Houston, TX 77005
Phone: 713-348-2487
http://lang.rice.edu/sbloem
Abaixo você encontra links para mais fotos em meus álbuns.
Nazaré,
Alcobaça, Batalha, Fátima